Segunda-feira, 5 de Outubro de 2009

Recordações do Quitexe 61/63 por Arlindo de Sousa - Parte VIII

 
         
Alguns dos angolanos que a partir de 1961 passaram a lutar de armas na mão pela realização imediata do seu ideal independentista acreditavam cegamente na justiça da sua causa, que defendia uma Angola apenas para as pessoas de raça negra. Nem os mestiços eram aceites.
 
 
 
 
 
 
Do lado dos portugueses, havia também gente que acreditava não menos cegamente na possibilidade real de uma pátria multirracial politicamente una e indivisível, apesar de pelo mundo geograficamente dispersa.
 
               Como alternativa às duas opções acima referidas, ambas condenadas pela história e pela consciência civilizacional sempre em evolução, também havia um vasto universo de pessoas, agrupando gente de todas as raças e tonalidades de pele que ansiava por uma Angola independente onde todos os que nela se encontravam teriam lugar.
 
          Este ideal – o único com futuro – foi-se enraizando profundamente na alma da maioria esmagadora das pessoas que viviam em Angola. A sua concretização seria apenas uma questão de tempo. O ideal colectivo estava maduro. Faltava apenas aquilo que em História se designa de motivo para se realizar. E que surgiria não pela luta armada mas pela revolução mental.
 
      É por esta razão que no caso de Angola, o desfecho acabou por não ser propriamente militar. Antes foi representado por uma grande e esperançosa festa, generosamente desencadeada pelo Movimento dos Capitães em Portugal.
 
       A quem duvidar da minha convicção nesta matéria, apenas direi que em 1975, num comício de apoio ao MPLA realizado no anfiteatro da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (em que por acaso estive presente), o Almirante Rosa Coutinho, falando aos presentes, afirmou que em Angola, no dia 25 de Abril de 1974, a FNLA (antiga UPA) estava praticamente extinta, a UNITA colaborava com o Exército Português e o MPLA, o partido então mais credível e de todo anti-racista, passo a citar, "estava de tanga". Creio que o conceito de "tanga", no contexto em foco, se referiria à componente militar e não propriamente à credibilidade da filosofia do MPLA. Intelectualmente sólida e em expansão em todas as vertentes do pensamento.
 
       Em relação ao desfecho esperançoso e festivo do legítimo e profundo anseio de independência de Angola, representado pelo salto qualitativo que em termos de dinamismo lhe imprimiu a Revolução dos Cravos em Portugal, julgo que podemos dizer que, historicamente, no foro da consciência – o único espaço onde acontecem as verdadeiras mudanças de mentalidade (afinal as autêntica revoluções) – estamos em presença de uma vitória comum a angolanos e portugueses. Como poderíamos de outro modo justificar a Revolução de 25 de Abril de 1974 em Portugal? Pessoalmente, acho que esta data devia ser festejada como o dia da liberdade de e por todos os povos de língua portuguesa.
 
      Em 25 de Abril de 1974, não é demais repetir, a chamada luta armada em Angola quase já não existia. E a independência aconteceu não pela força das armas mas pela força da evolução da consciência civilizacional de Angola, de Portugal e do Mundo.
 
    O que em meu entender inquinou a alma angolana, por natureza entre muitas outras qualidades pacífica e tolerante, foi a guerra civil angolana que se desencadeou a seguir à independência política. Todavia, a paz regressou e Angola está em pujante progresso. Tenho esperança na capacidade realizadora dos angolanos. O presente de Angola já é admirável. A grandeza do seu futuro, entre muitos outros agentes, será directamente proporcional à capacidade que os angolanos tiverem de se abrir aos países de expressão oficial portuguesa em particular e ao Mundo em geral.
 
Arlindo de Sousa
publicado por Quimbanze às 09:43

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