Segunda-feira, 5 de Outubro de 2009

Recordações do Quitexe 61/63 por Arlindo de Sousa - Parte X

 
     Cerca de uns dois meses depois de chegar a Aldeia Viçosa, recebemos no posto uma mensagem pelo transreceptor P19 convocando-me para me apresentar com urgência na capital do distrito. O texto muito sintético, como era próprio daquele tipo de mensagens, era pouco esclarecedor e eu verdadeiramente fiquei sem saber o motivo da convocatória.
 Interior da Administração, sala do transreceptor P19 (são visíveis os sacos de areia a defender a janela)
 
 
     Dado que não havia quaisquer outras possibilidades de transporte, o Chefe de Posto António Augusto Ribeiro França colocou o Jeep do posto, devidamente abastecido de gasolina, à minha disposição e foi nele que, sozinho, fiz o percurso de cerca de 300 Km que separa Aldeia Viçosa da então cidade de Salazar (actual Ndalatando), via Entre Rios (uma dependência da Fazenda Pumbassai), Companhia Agrícola do Pumbassai, Camabatela, Samba Caju, e Lucala.
 
     Chegado a Ndalatando, fiquei a saber, concretamente, do que se tratava. Quando ainda estava em Luanda, concorri simultaneamente para o Quadro Administrativo e para a Força Aérea. Já estava eu no Quadro Administrativo, a Força Aérea convocava-me para efeitos de inspecção a realizar em Luanda. Instado a optar, abandonei a ideia da Força Aérea e declarei pretender ficar no Quadro Administrativo.
 
     Depois de, a seu desejo, ter ido à presença do Governador, Major Silva Sebastião, dar algumas informações sobre a situação na área do nosso posto administrativo, voltei com o Jeep para Aldeia Viçosa. Durante o percurso, na zona de Samba Caju fui apanhado por uma monumental trovoada acompanhada de chuva intensíssima. Parecia que o diabo tinha saído do Inferno.
 
     De tal modo que, dois ou três quilómetros a seguir àquela localidade, encontrei um camião parado e um tractor virado. Pensei logo no pior. Contudo, como vi o motorista do camião, parei e o que se estava a passar era que uma faísca acabava de matar o condutor do tractor. Resultado: Voltei a Samba Caju para avisar as autoridades locais, que me acompanharam até ao sítio do acidente, e fiz-me de novo à estrada.
 
      Entre Camabatela e a Pumbassai, cruzei-me com um Jeep, o que dada a perigosidade da zona era um acontecimento. Instintivamente ambos parámos com enorme espanto e dirigimo-nos um ao outro. Depois dos esclarecimentos recíprocos, fiquei a saber que o homem que estava à minha frente era o Chefe do então ainda Posto Administrativo do Quitexe, Nascimento Rodrigues. Conheci-o naquele momento e nunca mais o voltei a ver. Se ele ainda for vivo, poderá confirmar este meu registo.
     A impressão que naquele momento gravei na minha memória foi que estava na presença de um homem que, em consequência de meses antes ter vivido os massacres da área do Quitexe, estava muito destroçado. Mantendo contudo uma atitude de grande dignidade.
 
     Durante as breves explicações trocadas, o Chefe de Posto Nascimento Rodrigues quase que me chamou de inconsciente por eu estar a viajar sozinho para Aldeia Viçosa. Disse-me que fazer o trajecto sem protecção era arriscar demasiado. Um perigo próximo de um suicídio. Nascimento Rodrigues tinha plena razão. Naquele momento eu vivia realmente a inconsciência dos meus 18 anos de idade. Despedimo-nos. Como disse acima, nunca mais o vi. Felizmente, acompanhado da minha boa estrela, consegui regressar sem problemas a Aldeia Viçosa.
 
 
Esta foto exibe o Nissan Patrol que a Administração adquiriu novo. Era uma belíssima viatura. Que na fotografia eu estou a estacionar em frente da então Residência do Administrador.
 
     Encontrando-me outra vez mergulhado na lufa-lufa diária de Aldeia Viçosa, rapidamente esqueci os ponderados avisos do homem que no trágico dia 15 de Março de 1961 chefiava o Posto Administrativo do Quitexe, então pertencente concelho de Ambaca em Camabatela, distrito do Quanza Norte. Durante o pouco tempo que ainda permaneci em Aldeia Viçosa, foram várias as vezes (semanalmente) em que, acompanhado pelo Paulino ou por outro cipaio entretanto recrutado, fui buscar víveres à Fazenda Pumbassai.
 
     Costumava levar o Jeep e um atrelado emprestado pela tropa. No regresso, com o atrelado carregado, e às vezes ainda com alguns bailundos empoleirados em cima da carga, as subidas eram feitas a passo de caracol. Quando tínhamos a pouca sorte de chover, com o piso da estrada transformado numa camada de lama escorregadia como manteiga, a viagem era uma odisseia.
 
Lembro-me de uma vez em que, num dia em que o estado do tempo se apresentava normal, num troço do itinerário ladeado de capim, atravessaram a estrada à nossa frente vários veados. O pessoal quis logo parar para dar lhes dar caça. Fiz-lhes a vontade. Descemos todos e andámos por ali um bocado aos tiros. Não matámos nada. Para o futuro ficou apenas a memória da minha, então, mais que provada inconsciência. Apenas os 18 anos de idade podem justificar tamanha falta de calo e imponderação.
 
Arlindo de Sousa

 

publicado por Quimbanze às 09:20

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